Painel Dados que Cruzam o Atlântico na Arena Future Talks da Futurecom 2026, com Fabiane Wahlbrink, Beatrice Covassi e Flávio Maeda no palco
Fabiane Wahlbrink (VDMA Brasil), Beatrice Covassi (Delegação da União Europeia no Brasil) e Flávio Maeda (ABINC) na Arena Future Talks da Futurecom 2026.

A União Europeia está transformando dados rastreáveis em condição de acesso a mercado. Foi a partir dessa constatação que a ABINC, por meio do Open Industry, levou à Futurecom 2026 o painel “Dados que Cruzam o Atlântico: Passaporte Digital de Produto e a Nova Economia de Dados entre Brasil e União Europeia”, realizado em 6 de outubro, na Arena Future Talks, no São Paulo Expo.

O debate reuniu a visão de política pública europeia e a visão da indústria de máquinas e equipamentos, com a perspectiva brasileira, para discutir como o Passaporte Digital de Produto (DPP) e a economia de dados podem se tornar uma base de cooperação entre Brasil e União Europeia — e não uma barreira comercial.

Quem participou

  • Beatrice Covassi — Ministra-Conselheira da Delegação da União Europeia no Brasil
  • Fabiane Wahlbrink — Chefe de Representação da VDMA Brasil (Associação Europeia de Fabricantes de Máquinas)
  • Flávio Maeda — Vice-presidente da ABINC, líder do Open Industry e Diretor de Digitalização da AFRY para a América Latina (moderador)

Por que o tema pertence à Futurecom

O DPP, previsto no Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR), e o Passaporte de Bateria exigirão que fabricantes e exportadores comprovem origem, composição, pegada de carbono e circularidade com dados confiáveis e auditáveis. O CBAM segue a mesma lógica para as emissões embutidas nos produtos. Em paralelo, o Data Act e os Data Spaces europeus — Gaia-X, IDSA, Manufacturing-X e Catena-X — criam a infraestrutura de confiança para compartilhar esses dados entre empresas sem perda de soberania.

Cumprir o DPP não é apenas um exercício de conformidade: exige arquitetura de dados desde a engenharia do produto, sensoriamento, conectividade, identificadores únicos e interoperabilidade entre sistemas de empresas diferentes. Por isso o tema dialoga diretamente com o ecossistema da Futurecom: sem infraestrutura digital, IoT e plataformas de dados, não há passaporte que funcione em escala.

A posição da ABINC: três argumentos

Na abertura, Flávio Maeda apresentou a posição da ABINC: o Passaporte Digital de Produto não é uma barreira europeia — é a porta de entrada do Brasil na economia de dados com a Europa. Mas só atravessa o Atlântico quem tiver dados confiáveis, rastreáveis e interoperáveis. A tese foi sustentada em três argumentos:

  • Regulação: a regra já chegou. O ESPR está em vigor desde julho de 2024, com o DPP entrando por categoria de produto; o passaporte de baterias será obrigatório a partir de fevereiro de 2027; e o CBAM está em fase definitiva desde janeiro de 2026. Aço, alumínio, celulose, minerais e autopeças brasileiros vão precisar provar seus atributos — com dados.
  • Confiança: dado não atravessa o oceano sozinho. Para compartilhar dados de produto, a empresa não pode perder o controle sobre eles. Na Europa, Gaia-X, IDSA e Catena-X já formam a infraestrutura de confiança da indústria; no Brasil, as bases estão no Open Industry (ABINC e CNI), no Hub Gaia-X Brasil, no IDSA Hub Brasil e no Data Space Nacional de Carbono. A ponte entre os dois lados depende de interoperabilidade técnica e de governança.
  • Protagonismo: o Brasil pode liderar, não apenas cumprir. Matriz energética limpa, agro e indústria digitalizados e referência mundial em Pix e Open Finance são ativos que poucos países reúnem. O passaporte pode virar a prova do produto brasileiro de baixo carbono — e o dado de produto, uma chave para destravar crédito verde e acesso a mercados.

O acordo Mercosul–UE eleva a régua de dados

O debate também conectou o tema ao acordo Mercosul–União Europeia, assinado em janeiro de 2026 e com aplicação provisória desde maio. O acordo abre acesso a um dos maiores mercados do mundo, mas vender para a UE passa a exigir rastreabilidade, emissões e dados de produto — com DPP, CBAM e EUDR (regulamento sobre desmatamento) apoiados, todos, em interoperabilidade.

No caso do CBAM, o argumento é direto: quem não comprovar suas emissões reais paga pela média mais alta. Compartilhar dados de carbono confiáveis ao longo da cadeia, por meio de um Data Space, protege a margem e a competitividade do exportador brasileiro.

Fabiane Wahlbrink, Beatrice Covassi e Flávio Maeda na Arena Future Talks da Futurecom 2026
Fabiane Wahlbrink (VDMA Brasil), Beatrice Covassi (Delegação da União Europeia no Brasil) e Flávio Maeda (ABINC) após o painel na Arena Future Talks.

Política pública europeia e a visão da indústria

Beatrice Covassi trouxe a perspectiva regulatória e de política pública da União Europeia: a lógica do ESPR e do DPP dentro do Pacto Ecológico Europeu e da estratégia de dados do bloco, o que muda para empresas de países parceiros que exportam para a UE e como a Europa enxerga a cooperação com o Brasil em dados, padrões e economia verde.

Em sua fala, Beatrice destacou um dado que ilustra o momento da relação entre os dois blocos: o comércio entre o Mercosul e a União Europeia já cresceu 25% desde a entrada em vigor do acordo — mais um sinal de que a capacidade de comprovar atributos de produto com dados confiáveis será decisiva para o Brasil aproveitar essa oportunidade.

Fabiane Wahlbrink apresentou a visão da indústria de máquinas e equipamentos: como os fabricantes estão se preparando para gerir dados de produto ao longo de todo o ciclo de vida, o papel de padrões e de iniciativas como o Manufacturing-X, os desafios práticos de implementação — especialmente para pequenas e médias empresas e fornecedores — e o que empresas brasileiras podem fazer desde já para se conectar a essas cadeias.

Três perguntas, um caminho

O debate foi organizado em torno de três perguntas: o que a União Europeia espera, como a indústria europeia está se preparando e o que o Brasil precisa fazer agora. Entre os temas discutidos estiveram o DPP como custo de conformidade ou oportunidade de diferenciação, o papel da conectividade, da IoT industrial e das plataformas de dados para tornar a rastreabilidade viável em escala, a garantia de soberania no compartilhamento entre empresas de países diferentes e a possibilidade de o mercado regulado de carbono brasileiro (SBCE) e o DPP se apoiarem na mesma base de dados.

Para o ecossistema da Futurecom, o recado foi claro: conectividade é a camada física do Passaporte Digital. IoT, edge e nuvem geram e transportam o dado do passaporte; padrões abertos e interoperáveis dos dois lados do Atlântico, pilotos conjuntos Brasil–UE em cadeias exportadoras e a inclusão das PMEs — e não só das grandes empresas — são condições para que isso aconteça.

Quem tem dado rastreável e confiável tem acesso a mercado. A preparação começa cedo, na arquitetura de dados dos projetos de engenharia, e funciona melhor quando parte de casos de uso reais entre fornecedor e cliente e escala a partir deles.

A mensagem final do painel reforça a estratégia que o Open Industry vem defendendo: começar pequeno, com um caso real em uma cadeia exportadora, e escalar — fazendo do Passaporte Digital de Produto uma ponte, e não um muro, entre a indústria brasileira e o mercado europeu.

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