Encontro realizado no SENAI Vila Mariana reuniu indústria, academia, associações e especialistas internacionais para discutir como os dados estão deixando de ser apenas registros operacionais para se tornar ativos estratégicos de uma nova economia.
Durante décadas, boa parte dos dados produzidos pela indústria permaneceu restrita a documentos, planilhas, sistemas isolados ou até mesmo ao conhecimento das pessoas responsáveis pelos processos. A digitalização começou a transformar esse cenário. Agora, uma nova etapa se apresenta: fazer com que dados possam circular de maneira segura e controlada entre empresas, fornecedores, clientes, instituições e diferentes setores da economia.
Essa evolução — do papel aos Data Spaces — foi o fio condutor do encontro Economia de Dados — O novo motor da produtividade, do papel aos Data Spaces, realizado no SENAI Vila Mariana, em São Paulo, tendo como palestra principal Sonia Jimenez, Diretora de Tecnologia da International Data Spaces Association (IDSA).
Mais do que discutir uma nova tecnologia, o encontro colocou em pauta uma mudança importante na forma como empresas e instituições passam a enxergar os dados: não apenas como consequência dos processos, mas como ativos capazes de gerar produtividade, competitividade e novos modelos de negócio.
Educação, tecnologia e indústria no mesmo ecossistema
A realização do encontro contou com o apoio da FIESP e do SENAI-SP, reforçando a importância da articulação entre indústria, educação, tecnologia e entidades representativas para a construção de uma agenda brasileira voltada à economia de dados.
Nesse contexto, tiveram papel importante no apoio à realização da iniciativa o Professor Osvaldo Lahoz Maia, Assessor da Diretoria Regional do SENAI-SP, e Marcello Souza Junior, Gerente de Relacionamento com o Mercado do SENAI-SP, contribuindo para aproximar a discussão sobre Data Spaces dos desafios concretos de competitividade, produtividade e transformação digital enfrentados pela indústria paulista.
Essa articulação institucional é relevante quando se considera que a transformação para uma economia orientada por dados não depende exclusivamente de tecnologia. Ela exige a formação de profissionais qualificados, ambientes de experimentação, aproximação entre empresas e centros de conhecimento e, principalmente, a criação de ecossistemas capazes de transformar inovação em aplicações reais para a indústria.
A escolha do SENAI Vila Mariana como palco para a discussão reforçou justamente essa mensagem: a transformação digital da indústria depende tanto de infraestrutura tecnológica quanto da formação de pessoas e da aproximação entre empresas, academia e instituições de pesquisa.
Na abertura, Felipe Siqueira, Diretor do SENAI Vila Mariana, destacou a importância histórica do SENAI no desenvolvimento de mão de obra especializada no Estado de São Paulo e seu papel na preparação de profissionais para acompanhar as transformações tecnológicas da indústria.
Fernando Crespo, Coordenador de Novos Negócios do SENAI Vila Mariana, apresentou projetos em desenvolvimento e ressaltou a importância da aproximação entre empresas e academia para transformar conhecimento e tecnologia em soluções capazes de produzir resultados concretos para a indústria.
Um dos exemplos apresentados foi a atuação das unidades móveis do SENAI, que permitem levar infraestrutura educacional, conhecimento e tecnologia para regiões onde não existem unidades físicas da instituição. A iniciativa exemplifica um desafio que também está presente na transformação digital: fazer com que conhecimento e tecnologia consigam chegar até onde a indústria efetivamente acontece.
Da tecnologia à construção de ecossistemas
Na sequência, Mateus Pierre, Diretor de P&D do Instituto Eldorado, apresentou a atuação da instituição e projetos realizados nas áreas de software e Data Spaces, além das perspectivas de novos projetos em colaboração com a Associação Brasileira de Internet das Coisas (ABINC).
Essa aproximação entre institutos de pesquisa, empresas e entidades representativas é particularmente importante quando se trata de Data Spaces. Diferentemente de uma plataforma centralizada tradicional, esses ambientes dependem da construção de regras, padrões, interoperabilidade e mecanismos de confiança capazes de permitir a troca de informações entre diferentes participantes.
Rogério Moreira, Presidente da ABINC, apresentou as diferentes verticais de atuação da associação, sua interlocução com o Governo Federal e as iniciativas relacionadas a Data Spaces conduzidas em colaboração com instituições como MDIC, ABDI e Ministério da Fazenda.
Também destacou a construção de conexões internacionais com organizações como VDMA, Gaia-X e IDSA, aproximando o ecossistema brasileiro das experiências internacionais que vêm estruturando a economia de dados.
Essa articulação já começa a ganhar forma concreta. O Open Industry conecta empresas, governo e academia em torno da construção de uma infraestrutura interoperável para compartilhamento de dados, enquanto o Brasil vem se aproximando dos padrões internacionais desenvolvidos pela IDSA e de iniciativas como a Gaia-X.
O tema ganha relevância porque os Data Spaces propõem uma mudança importante na lógica tradicional de compartilhamento de informações: empresas podem cooperar e trocar dados mantendo controle sobre como suas informações são utilizadas. Colaboração e soberania sobre os dados deixam, portanto, de ser conceitos antagônicos.
O dado como ativo econômico
A discussão avançou então do compartilhamento de dados para uma questão anterior e fundamental: como gerar dados capazes de produzir valor?
Mauricio Finotti, Líder do Comitê Open Industry da ABINC e CEO da I-SENSI, abordou a importância dos dados nas operações industriais e como sua utilização vem evoluindo de uma função predominantemente operacional para uma função estratégica.
Máquinas, processos produtivos, sistemas de gestão, cadeias logísticas e produtos geram continuamente informações. Entretanto, gerar dados não significa necessariamente gerar valor.
Para participar efetivamente da economia de dados, é necessário transformar sinais e registros operacionais em informações confiáveis, contextualizadas e interoperáveis.
É essa transformação que permite que os mesmos dados utilizados inicialmente para acompanhar produtividade, disponibilidade de equipamentos ou consumo de recursos possam posteriormente alimentar aplicações mais avançadas, como Inteligência Artificial, manutenção avançada, rastreabilidade, indicadores ambientais, Passaporte Digital de Produto e integração com Data Spaces.
Nesse contexto, a digitalização deixa de ser apenas uma ferramenta para melhorar processos internos. A capacidade de gerar e utilizar dados passa a representar uma nova dimensão da competitividade empresarial.
Essa visão também permite uma abordagem pragmática para a transformação digital: começar por um equipamento, processo ou caso de uso com resultado econômico mensurável e, a partir dele, expandir a infraestrutura de dados para outros ativos, fornecedores, clientes e participantes da cadeia de valor.
Data Spaces e a agenda de descarbonização
Outra aplicação concreta dessa nova infraestrutura foi apresentada por Flávio Maeda, Vice-Presidente da ABINC e Head de Digitalização da AFRY, que abordou projetos de descarbonização apoiados por Data Spaces.
O exemplo evidencia como a economia de dados começa a ultrapassar os limites individuais das empresas.
Indicadores ambientais e de carbono frequentemente dependem de informações provenientes de diferentes organizações de uma mesma cadeia produtiva. Para que esses dados possam ser utilizados em processos de rastreabilidade, cálculo de emissões, auditoria e novos mecanismos econômicos ligados à sustentabilidade, precisam ser confiáveis e verificáveis.
Esse cenário amplia a importância de arquiteturas capazes de compartilhar informações preservando governança e soberania sobre os dados e demonstra como os Data Spaces podem servir de infraestrutura para aplicações que dependem da colaboração entre diferentes organizações.
A experiência europeia e a oportunidade brasileira
Encerrando o encontro, Sonia Jimenez, Diretora de Tecnologia da International Data Spaces Association (IDSA), trouxe uma perspectiva internacional sobre o desenvolvimento dos Data Spaces na Europa.
Sonia já havia participado de iniciativas do Open Industry discutindo Data Spaces como habilitadores da segurança e da soberania dos dados, conceitos que estão no centro da arquitetura desses ecossistemas.
Sua apresentação percorreu a evolução desse ecossistema na Europa, os principais aprendizados obtidos ao longo do processo, os ganhos alcançados e o cenário que começa a se desenhar para a economia de dados europeia.
A experiência acumulada pela Europa representa uma oportunidade particularmente relevante para países que começam agora a estruturar seus próprios ecossistemas. Em vez de simplesmente reproduzir modelos existentes, esses países podem aproveitar os aprendizados, padrões, tecnologias e dificuldades já identificados para construir estratégias adaptadas às suas próprias características econômicas e industriais.
Nesse contexto, Sonia destacou a relevância do Brasil no ecossistema internacional de Data Spaces e o trabalho que vem sendo realizado pela ABINC para aproximar o país das iniciativas globais.
A oportunidade brasileira é significativa justamente porque o país não precisa simplesmente repetir o caminho percorrido pela Europa. Pode utilizar o conhecimento acumulado internacionalmente e combiná-lo às características de sua própria indústria, construindo um modelo adequado à realidade nacional.
Uma possibilidade particularmente relevante é avançar a partir de casos de uso concretos, capazes de demonstrar valor econômico, para posteriormente conectar esses casos, ampliar os ecossistemas participantes e escalar a infraestrutura.
Essa construção já está em andamento. O Open Industry registra iniciativas brasileiras de Data Spaces envolvendo indústria, instituições públicas e parceiros internacionais, incluindo projetos voltados à interoperabilidade entre Brasil e União Europeia.
Do papel à economia de dados
A evolução discutida durante o encontro pode ser sintetizada em uma trajetória aparentemente simples:
Papel → Digitalização → Dados → Informação → Inteligência → Compartilhamento → Data Spaces → Economia de Dados.
Mas cada etapa representa uma transformação importante.
Digitalizar um processo não significa apenas substituir papel por uma tela. Conectar uma máquina não significa apenas coletar sinais. E compartilhar dados não significa simplesmente enviá-los para uma plataforma externa.
A nova economia de dados exige que as informações tenham contexto, qualidade, interoperabilidade, segurança e regras claras de utilização.
Quando essas condições existem, os dados deixam de servir exclusivamente à empresa que os produziu. Eles podem gerar valor ao longo de cadeias produtivas, conectar fornecedores e clientes, habilitar novos serviços, apoiar modelos de Inteligência Artificial, demonstrar atributos de sustentabilidade e criar novas relações econômicas entre organizações.
Essa talvez seja uma das principais mudanças trazidas pelos Data Spaces: transformar o dado de registro de uma atividade passada em infraestrutura para uma atividade econômica futura.
O Brasil já possui uma indústria relevante, cadeias produtivas complexas, instituições de formação e pesquisa, um ecossistema tecnológico crescente e, ao mesmo tempo, pode aproveitar a experiência acumulada por iniciativas internacionais.
O próximo passo será conectar esses elementos.
Na economia de dados, a vantagem competitiva não estará apenas em quem possui mais dados, mas em quem consegue transformá-los em confiança, inteligência, colaboração e valor.